Os parabéns à Maju
Todo mundo está sabendo da Maju, que agora é apresentadora do Jornal Nacional. Estamos orgulhosos? Claro que estamos. Todos queremos parabenizar a Maju. Mas existe um ponto que vem me incomodando em meio a essa alegria toda.
Esses dias eu estava lendo sobre os movimentos sociais de mulheres afro-americanas dos anos 1920 e 1930, e sobre os dos anos 50, 60 e 70. A diferença básica entre eles é a questão da cultura do uplift. Nos anos 20 e 30, a estratégia era a ajuda mútua: as poucas mulheres negras de classe média e que chegaram a entrar na universidade se organizavam em clubes, faziam eventos caritativos, juntavam dinheiro para ajudar as mulheres negras pobres, etc. No entanto, esses clubes não tinham uma perspectiva revolucionária: o objetivo era que mulheres pretas cuidassem de mulheres pretas. Certo que essa estratégia ajudou muitas a alcançar muitas coisas, isto e inegável. Mas esse plano de ação não mexia nas estruturas sociais - não era revolucionário.
Nos anos 60 e 70, apesar de o foco ter saído das mulheres pretas e se dirigido às causas comuns aos pretos e pretas - o que é uma questão que merece um texto só seu -, o objetivo era claramente de mudança profunda. A ajuda comunitária não era mais suficiente para resolver problemas que nada tinham a ver com situação totalmente além do esforço pessoal, entre eles a segregação legal que ocorria nos estados do Sul dos Estados Unidos, os antigos estados confederados e escravistas da época da Guerra de Secessão. Cansados de morrer e de viver em situação
Todo mundo está sabendo da Maju, que agora é apresentadora do Jornal Nacional. Estamos orgulhosos? Claro que estamos. Todos queremos parabenizar a Maju. Mas existe um ponto que vem me incomodando em meio a essa alegria toda.
Esses dias eu estava lendo sobre os movimentos sociais de mulheres afro-americanas dos anos 1920 e 1930, e sobre os dos anos 50, 60 e 70. A diferença básica entre eles é a questão da cultura do uplift. Nos anos 20 e 30, a estratégia era a ajuda mútua: as poucas mulheres negras de classe média e que chegaram a entrar na universidade se organizavam em clubes, faziam eventos caritativos, juntavam dinheiro para ajudar as mulheres negras pobres, etc. No entanto, esses clubes não tinham uma perspectiva revolucionária: o objetivo era que mulheres pretas cuidassem de mulheres pretas. Certo que essa estratégia ajudou muitas a alcançar muitas coisas, isto e inegável. Mas esse plano de ação não mexia nas estruturas sociais - não era revolucionário.
Nos anos 60 e 70, apesar de o foco ter saído das mulheres pretas e se dirigido às causas comuns aos pretos e pretas - o que é uma questão que merece um texto só seu -, o objetivo era claramente de mudança profunda. A ajuda comunitária não era mais suficiente para resolver problemas que nada tinham a ver com situação totalmente além do esforço pessoal, entre eles a segregação legal que ocorria nos estados do Sul dos Estados Unidos, os antigos estados confederados e escravistas da época da Guerra de Secessão. Cansados de morrer e de viver em situação
diminuída, as negras e negros norte-americanos se organizaram nos âmbitos
legal e popular para tentar mudar o racismo estrutural do país. Batalhas
jurídicas se organizaram para permitir que as escolas fossem unificadas, para
que negras e negros pudessem comprar ou alugar suas casas onde quisessem, e até
o básico do básico: votar. Sim, porque cada estado dava um migué na
Constituição Americana e impunha regras para os eleitores como possuir terras
(ha, que negra ou negro tinha terras?) ou fazer testes absurdos de inteligência
num tempo extremamente curto. No começo do filme Selma, vemos a personagem
interpretada pela Oprah Winfrey tentar, pela enésima vez, se inscrever para
votar e falhar diante das condições anormais impostas pela sua zona eleitoral
sulista e racista.
O ponto é o seguinte: mesmo com muito sangue derramado, esses direitos básicos somente foram conquistados com revolução, e não com complacência. As pessoas tiveram que protestar, marchar, gritar, lutar em tribunais, se organizar, sofrer, chorar, para que as gerações seguintes pudessem conseguir um mínimo de decência. Houve uma mudança estratégica entre os movimentos sociais: ao invés de tentarmos sobreviver entre nós mesmos, auxiliando-nos e dando as mãos, falando sobre nossas dores somente entre nossa comunidade, vamos tentar fazer com que essa sociedade que roubou nossos ancestrais de maneira tão violenta nos considere como cidadãos por inteiro.
De volta a 2019: Maju no JN. Todos aplaudem. Mas sempre soubemos que a Maju é competente. Resta saber: quando dão parabéns à Maju, estão felicitando a quem? Porque eu não estou, em hora alguma, felicitando a gentileza do JN de somente se dar conta hoje, depois de 50 anos de existência, num Brasil de maioria afrodescendente, que existe, oh, é verdade, uma mulher negra suficientemente competente para ocupar a bancada. Depois de tantas mil estagiárias que por todas as milhões de razoes racistas possíveis se perderam num processo de seleção até chegar no jornalismo da Globo.
Meu desespero é que as tantas pessoas que aplaudiram a Maju parecem, a meu ver, aplaudir por trás outras coisas: a primeira, a cultura do uplift, o discurso do "ela não precisou fazer escândalo pra chegar onde chegou, veio sem histeria, discreta", a atribuição da infinita possibilidade ao mérito pessoal, como se ela vivesse numa sociedade paralela onde não existe o racismo que a fez seguramente cair muitas vezes. A segunda é a epifania supervalorizada do branco: agora, depois de 50 anos, o JN tirou a cera racista do ouvido e prestou atenção às nossas reclamações, e pensou que seria uma boa idéia contratar a jornalista negra competente que sempre esteve ali. E todos vibram com a tomada de consciência óbvia, quando os movimentos negros sempre insistiram nisso e foram tachados de loucos identitários.
O ponto é o seguinte: mesmo com muito sangue derramado, esses direitos básicos somente foram conquistados com revolução, e não com complacência. As pessoas tiveram que protestar, marchar, gritar, lutar em tribunais, se organizar, sofrer, chorar, para que as gerações seguintes pudessem conseguir um mínimo de decência. Houve uma mudança estratégica entre os movimentos sociais: ao invés de tentarmos sobreviver entre nós mesmos, auxiliando-nos e dando as mãos, falando sobre nossas dores somente entre nossa comunidade, vamos tentar fazer com que essa sociedade que roubou nossos ancestrais de maneira tão violenta nos considere como cidadãos por inteiro.
De volta a 2019: Maju no JN. Todos aplaudem. Mas sempre soubemos que a Maju é competente. Resta saber: quando dão parabéns à Maju, estão felicitando a quem? Porque eu não estou, em hora alguma, felicitando a gentileza do JN de somente se dar conta hoje, depois de 50 anos de existência, num Brasil de maioria afrodescendente, que existe, oh, é verdade, uma mulher negra suficientemente competente para ocupar a bancada. Depois de tantas mil estagiárias que por todas as milhões de razoes racistas possíveis se perderam num processo de seleção até chegar no jornalismo da Globo.
Meu desespero é que as tantas pessoas que aplaudiram a Maju parecem, a meu ver, aplaudir por trás outras coisas: a primeira, a cultura do uplift, o discurso do "ela não precisou fazer escândalo pra chegar onde chegou, veio sem histeria, discreta", a atribuição da infinita possibilidade ao mérito pessoal, como se ela vivesse numa sociedade paralela onde não existe o racismo que a fez seguramente cair muitas vezes. A segunda é a epifania supervalorizada do branco: agora, depois de 50 anos, o JN tirou a cera racista do ouvido e prestou atenção às nossas reclamações, e pensou que seria uma boa idéia contratar a jornalista negra competente que sempre esteve ali. E todos vibram com a tomada de consciência óbvia, quando os movimentos negros sempre insistiram nisso e foram tachados de loucos identitários.
Essas duas situações aplaudidas por trás revelam não uma sociedade menos racista , mas uma gente que quer o racismo resolvido sem acusações. Quando a Maju sofreu ataques racistas na internet e respondeu com a tal da elegância que adoram que tenhamos, ela disse "Os cães ladram, mas a caravana passa". Milhares de pessoas reproduziram em suas redes sociais a reação "classuda" de Maju ao racismo virtual. "Ela prova que é superior estando ali, sendo parte do JN". Para essas pessoas que acreditam que a cultura do uplift e a discrição são a melhor solução, Maju é um grande exemplo porque apesar de ser indubitavelmente competente, não é vista como figura revolucionária porque somente pode reclamar dentro dos moldes. Não pode gritar, apontar dedos, manifestar emoção. Respondeu ao racismo sorrindo e trabalhando, do jeito que o JN, a Globo e grande parte do Brasil gostam. Sobretudo, não deixam Maju e outros em situação parecida acusar ninguém porque acusar implica dar nomes e apontar culpados - e os culpados, obviamente, são a estrutura racista da sociedade brasileira que está derramada e infiltrada nos poros da direção e organização do Jornal Nacional.
Comemoremos a vitória de Maju como uma irmã que venceu - assim como tantos
entre nós que vencem apesar de tudo -, mas não nos deixemos enganar: o racismo
ainda existe, mas estrategicamente disfarçado. Estão prontos para a nossa
presença sob condição de que seja comedida e conciliadora.



