terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Os parabéns à Maju


Todo mundo está sabendo da Maju, que agora é apresentadora do Jornal Nacional. Estamos orgulhosos? Claro que estamos. Todos queremos parabenizar a Maju. Mas existe um ponto que vem me incomodando em meio a essa alegria toda.

Esses dias eu estava lendo sobre os movimentos sociais de mulheres afro-americanas dos anos 1920 e 1930, e sobre os dos anos 50, 60 e 70. A diferença básica entre eles é a questão da cultura do uplift. Nos anos 20 e 30, a estratégia era a ajuda mútua: as poucas mulheres negras de classe média e que chegaram a entrar na universidade se organizavam em clubes, faziam eventos caritativos, juntavam dinheiro para ajudar as mulheres negras pobres, etc. No entanto, esses clubes não tinham uma perspectiva revolucionária: o objetivo era que mulheres pretas cuidassem de mulheres pretas. Certo que essa estratégia ajudou muitas a alcançar muitas coisas, isto e inegável. Mas esse plano de ação não mexia nas estruturas sociais - não era revolucionário.

Nos anos 60 e 70, apesar de o foco ter saído das mulheres pretas e se dirigido às causas comuns aos pretos e pretas - o que é uma questão que merece um texto só seu -, o objetivo era claramente de mudança profunda. A ajuda comunitária não era mais suficiente para resolver problemas que nada tinham a ver com situação totalmente além do esforço pessoal, entre eles a segregação legal que ocorria nos estados do Sul dos Estados Unidos, os antigos estados confederados e escravistas da época da Guerra de Secessão. Cansados de morrer e de viver em situação
diminuída, as negras e negros norte-americanos se organizaram nos âmbitos legal e popular para tentar mudar o racismo estrutural do país. Batalhas jurídicas se organizaram para permitir que as escolas fossem unificadas, para que negras e negros pudessem comprar ou alugar suas casas onde quisessem, e até o básico do básico: votar. Sim, porque cada estado dava um migué na Constituição Americana e impunha regras para os eleitores como possuir terras (ha, que negra ou negro tinha terras?) ou fazer testes absurdos de inteligência num tempo extremamente curto. No começo do filme Selma, vemos a personagem interpretada pela Oprah Winfrey tentar, pela enésima vez, se inscrever para votar e falhar diante das condições anormais impostas pela sua zona eleitoral sulista e racista.

O ponto é o seguinte: mesmo com muito sangue derramado, esses direitos básicos somente foram conquistados com revolução, e não com complacência. As pessoas tiveram que protestar, marchar, gritar, lutar em tribunais, se organizar, sofrer, chorar, para que as gerações seguintes pudessem conseguir um mínimo de decência. Houve uma mudança estratégica entre os movimentos sociais: ao invés de tentarmos sobreviver entre nós mesmos, auxiliando-nos e dando as mãos, falando sobre nossas dores somente entre nossa comunidade, vamos tentar fazer com que essa sociedade que roubou nossos ancestrais de maneira tão violenta nos considere como cidadãos por inteiro.


De volta a 2019: Maju no JN. Todos aplaudem. Mas sempre soubemos que a Maju é competente. Resta saber:  quando dão parabéns à Maju, estão felicitando a quem? Porque eu não estou, em hora alguma, felicitando a gentileza do JN de somente se dar conta hoje, depois de 50 anos de existência, num Brasil de maioria afrodescendente, que existe, oh, é verdade, uma mulher negra suficientemente competente para ocupar a bancada. Depois de tantas mil estagiárias que por todas as milhões de razoes racistas possíveis se perderam num processo de seleção até chegar no jornalismo da Globo.

Meu desespero é que as tantas pessoas que aplaudiram a Maju parecem, a meu ver, aplaudir por trás outras coisas: a primeira, a cultura do uplift, o discurso do "ela não precisou fazer escândalo pra chegar onde chegou, veio sem histeria, discreta", a atribuição da infinita possibilidade ao mérito pessoal, como se ela vivesse numa sociedade paralela onde não existe o racismo que a fez seguramente cair muitas vezes. A segunda é a epifania supervalorizada do branco: agora, depois de 50 anos, o JN tirou a cera racista do ouvido e prestou atenção às nossas reclamações, e pensou que seria uma boa idéia contratar a jornalista negra competente que sempre esteve ali. E todos vibram com a tomada de consciência
óbvia, quando os movimentos negros sempre insistiram nisso e foram tachados de loucos identitários.

Essas duas situações aplaudidas por trás revelam não uma sociedade menos racista , mas uma gente que quer o racismo resolvido sem acusações. Quando a Maju sofreu ataques racistas na internet e respondeu com a tal da elegância que adoram que tenhamos, ela disse "Os cães ladram, mas a caravana passa". Milhares de pessoas reproduziram em suas redes sociais a reação "classuda" de Maju ao racismo virtual. "Ela prova que é superior estando ali, sendo parte do JN". Para essas pessoas que acreditam que a cultura do uplift e a discrição são a melhor solução, Maju é um grande exemplo porque apesar de ser indubitavelmente competente, não é vista como figura revolucio
nária porque somente pode reclamar dentro dos moldes. Não pode gritar, apontar dedos, manifestar emoção. Respondeu ao racismo sorrindo e trabalhando, do jeito que o JN, a Globo e grande parte do Brasil gostam. Sobretudo, não deixam Maju e outros em situação parecida acusar ninguém porque acusar implica dar nomes e apontar culpados - e os culpados, obviamente, são a estrutura racista da sociedade brasileira que está derramada e infiltrada nos poros da direção e organização do Jornal Nacional.

Comemoremos a vitória de Maju como uma irmã que venceu - assim como tantos entre nós que vencem apesar de tudo -, mas não nos deixemos enganar: o racismo ainda existe, mas estrategicamente disfarçado. Estão prontos para a nossa presença sob condição de que seja comedida e conciliadora.




quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Se você, assim como eu, mora no Planeta Ocidente, já deve estar a par da lista dos nomeados ao Grammy. Fuçando os nomeados que não conhecia, acabei caindo em "Makeba", da artista francesa Jain.


O clipe foi rodado na África do Sul, e nele vemos a participação da própria artista e de vários anônimos que podemos deduzir ser também sul-africanos. Tem muita dança com movimentos africanos, a musiquinha é chiclete e a edição é bastante bonita. O clipe deve ter custado bem caro.
Assisti ao Making Of, disponível facilmente no Youtube pelo próprio Vevo. Jain foi bastante cuidadosa ao dar conta de quem colaborou com ela para o clipe, dos bailarinos (Perfect Storm Crew, de Soweto, que dançam variações da dança Pantsula) à ilustradora que criou o mural que aparece no início do clipe (a artista se chama Karabo Poppy Moletsane, vive em Johanesburgo e é ilustradora e designer gráfica). É claro que fazer este tipo de reconhecimento deveria ser automático da parte de qualquer artista que queira compor com/sobre culturas anteriormente colonizadas, mas como muita gente faz isso bastante mal - ou simplesmente não o faz - é importante deixar claro que no caso dela houve decência neste setor. É importante frisar que o produtor do clipe, Olivier Bassuet, é francês e é negro, fato que eu tenho 105 por cento de certeza que colabora para a construção de um clipe visualmente respeitoso às referências africanas que utiliza.
Duas coisas, porém, ameaçam essa aura de responsabilidade cultural do clipe. Uma é a letra. Vamos dar uma olhada neste trechinho aqui:

I wanna hear your breath just next to my soul
I wanna feel oppressed without any rest
I wanna see you sing, I wanna see you fight
Cause you are the real beauty of human rights

Na internet toda, o segundo verso, "I wanna feel oppressed without any rest" (Quero sentir-me oprilida sem cessar) é apresentado como "I wanna feel your breasts without any rest"(Quero sentir seus seios sem cessar). No Lyric-Genius.com, um site onde é possível ler as explicações para as referências de várias letras de música, a segunda frase também estava escrita como na maioria das transcrições da letra encontradas na internet, "I wanna feel your breasts...", mas grifada e corrigida por outros usuários como "I wanna feel oppressed without any rest". Eu ouvi, desde a primeira vez que ouvi a música, "I wanna feel oppressed", mas fiquei intrigada com as transcrições e assisti repetidamente ao trecho correspondente do clipe para ter certeza. Há a vantagem de haver um plano ampliado da artista cantando esta frase, o que, aliado às minhas aulas de fonética, fazem com que eu afirme que a versão correta é "opressed without any rest". 
É aí que entra o meu grande problema com a canção. Não existe nada de errado em ser uma artista francesa branca e prestar homenagem a Miriam Makeba e declará-la como uma grande influência musical em sua vida, ainda mais quando isso é feito de maneira visualmente responsável. Mas apesar de  Jain poder ser a maior apreciadora de Makeba de todos os tempos, ouvi-la todos os dias desde a infância e de estar a par de sua trajetória artística e política, ela precisa conhecer aquele elemento  sobre o qual falamos todo o tempo: o lugar de fala. O clipe estava muito bom, e a letra seria ótima se não contivesse esta frase na qual a artista diz que quer se sentir oprimida sem cessar. 
Parece muita chatice da minha parte insistir num aspecto que parece tão pequeno dentro de uma canção. Eu sei que muitas pessoas nunca vão parar para reparar na letra completa (existem duas estrofes compostas e o restante são versos repetidos que servem de refrão eterno), mas acho que faz parte apontar essas coisas. Fica difícil saber se Jain entendeu que para ser aliada de Miriam Makeba na luta pelos direitos civis ela não precisa sofrer como ela, simplesmente porque isto é impossível justamente por ela ser branca e morar em um país diferente, numa outra época. É possível, é claro, ter empatia, dar conta do trabalho de Makeba, prestar homenagens de maneira respeitosa, mas não tem cabimento achar que sofrimento e experiência possam ser adquiridos através da escuta e apreciação de um conjunto de músicas. O segundo problema desta atitude de vontade de aquisição do sofrimento é a excusa: consumir cultura africana, relacionar-se com pessoas negras, e até viver num país de maioria negra não fazem de si um branco isento de culpa, já que esta desigualdade persiste na estrutura racista de diversas antigas colônias (como o Brasil, a África do Sul e os territórios franceses de além-mar). Ser branco, mesmo sendo um branco "certinho", é gozar de privilégios pelos quais não se pediu mas que vêm de brinde com o nascimento - como, por exemplo, não terem medo de você, não suspeitarem de você dentro de uma loja, não ser  desumanizado(a) em diversos aspectos. 
Em tempo: a estética preta e branca é representada no clipe com insistência. O painel do começo do clipe é preto e branco,  as menininhas negras que dançam, uma com albinismo e outra não, sao visualmente encaixadas como num quebra-cabeças preto e branco, o vestido da artista é preto e branco e, por fim, a cena final é da artista pintando listras pretas numa zebra (que era branca). Não vou afirmar com tanta vontade sobre este aspecto, vou deixar meu "achismo" sobre esta parte: será que Jain tentou mandar um "vamos nos unir", um "meu sangue é preto porque todos somos África biologicamente", insistindo, desta vez sutilmente, nesta apropriação dos aspectos socio-culturais negros através do consumo audiovisual? Será que rolou aquele discurso da harmonia, do "vamos dar as mãos"? A intenção por trás deste tipo de afirmativa é quase sempre boa, mas apaga todo o histórico de opressão de uma categoria sobre a outra - algo que, a meu ver, deve ser considerado acima de qualquer coisa num país com a história da África do Sul. Deixo aqui a suspeita sobre as intenções desta escolha.
 Meu objetivo não é freiar qualquer tentativa de homenagem à cultura africana da parte de artistas brancos, mas deixar claro que para fazê-lo de maneira correta é necessário muita reflexão e algum momento fora de suas zonas de conforto para não fazer besteira. Tivemos o exemplo aberrante de Malu Magalhães, com aquele clipe que foi o oposto da responsabilidade audiovisual, onde o povo preto todo avisou que tava ruim, que tava péssimo, mas que Malu preferiu ficar cega nos privilégios e coroou o papelão no programa da Fátima Bernardes com aquela afirmação patética. 
Se houve um mínimo de cuidado no clipe de Jain, é graças ao martelamento do nosso discurso que anda sendo absorvido a duras penas. Mas ainda não ficou impecável por conta da afirmação infeliz. Se quem a ouve perceber o verso problemático e isso gerar reivindicação, espero que ela tenha a decência de ouvir, se posicionar e repensar sua atitude. 

De cima para baixo: imagens do clipe de Jain - o preto no branco e a harmonia que apaga a história